Curiosidades, Para imigrantes

O Que Acontece Com Seu Português Ao Morar Fora

Bandeiras lusófonas
By Achado e instituto de ajuda ao aluno carente (Own work) [CC-BY-3.0], via Wikimedia Commons
Se você mora em um país de língua inglesa por um bom período de tempo, vai perceber que sua habilidade na língua portuguesa tende a cair.

A exceção aqui é para os que vivem em comunidades brasileiras e só se envolvem com outros brazucas. O lado ruim disso é que eles raramente aprenderão inglês de verdade, um dos motivos pelos quais muitos brasileiros que moram anos aqui não falam quase nada do idioma.

Inclusive, resolvi escrever todos meus blogs em português para não “esquecer” do idioma materno, além de outros motivos é claro.

Alguns podem pensar que isso é frescura ou que sou metida, mas se você viver, ouvir e falar em outra língua 24 horas por dia você acaba esquecendo do português e acaba falando certas palavras portuguesas com alguns sons ingleses.

No entanto esse esquecimento não é do tipo que você deve estar pensando. Isso não quer dizer que esqueci do que aprendi por mais da metade da minha vida no Brasil.

Mas que quando falo em português, esqueço de uma ou outra palavra (tá na ponta da língua mas não sái) ou minha mente simplesmente acha mais fácil usar uma expressão em inglês (há expressões em inglês que não existem em português e vice-versa, às vezes penso por que essas palavras não são usadas da mesma forma em português ou em inglês já que são mais fáceis e “fazem mais sentido”) do que em português e ela acaba saindo em inglês mesmo.

Quando estive no Brasil recentemente, fui fazer compras em algumas lojas brasileiras e meus acompanhantes viviam me cutucando, por que eu via um produto e dizia algo do tipo:

“Ah, isso é 10 dólares” e levava o cutucão “10 dólares não. 10 Reais.”

Outras vezes eu começava a falar algumas frases em inglês no meio da conversa e todo mundo me olhava com cara de interrogação J Eu nem percebia que fazia isso.

E isso acontece mesmo quando você conversa com seu amigo brasileiro que mora aqui também. Vocês se encontram e conversam em português mas às vezes é uma mistureba de metade da frase em português mais metade em inglês. Mas a diferença é que a gente se entende, por que eles fazem o mesmo e sabem como é.

Uma vez conversando com outra brasileira dessa forma, um americano que estava ouvindo a conversa ficou olhando com cara de confuso, provavelmente pensado que diachos estávamos falando, espanhol, spanglish quem sabe?

Se você fala com hispânicos a mistureba ainda é maior com a adição de espanhol na mistura. Uma coisa linda de se ouvir.

By nathanmac87 via flickr (CC BY 2.0)

Outra coisa interessante que acontece é o de repensar sua própria língua materna, isso mesmo, você ouve as palavras portuguesas com “outros ouvidos”.

Acha certas palavras e sons engraçados e começa a se perguntar por que as pessoas usam essa expressão ao invés de outra e assim por diante. Algo que antes, quando você morava no Brasil, raramente acontecia.

Outra coisa é a de escrever em português, se você não se perguntava antes se tal palavras é com x, ç, ss e bla bla bla e não tinha essas dúvidas antes, depois de morar no exterior e deixar de escrever por um tempo no seu idioma (e mesmo escrevendo regularmente) você começa a ter essas dúvidas e até a americanizar certas palavras ou expressões (tal qual querer escrever comforto em português por que em inglês não há a regra do m antes de p e b e conforto fica comfort mesmo). É normal.

Fora o fato de que a língua inglesa é bem mais direta e vai ao ponto, não fica enrolando… A língua portuguesa (especialmente a versão brasileira) adora dar uns rodeios e embelezar tudo antes de chegar ao fim do argumento. Não digo que isso é algo ruim mas há momentos em que ir direto ao ponto é necessário.

Soube através de conhecidos aqui (outros imigrantes) que isso também acontece com o espanhol. Quando eles tem que escrever em espanhol eles pensam e pensam por que eles tem que “encher linguiça” em seus e-mails e etc e respiram tranquilamente quando tem que fazer a mesma tarefa em inglês por que é mais rápido e eficaz.

Esse estilo de comunicação direito é algo que a gente tem que se acostumar aqui mas quando a gente se acostuma, o que ocorreu comigo, tem gente que vai te classificar como frio, sem emoção até grosso.

Mas na verdade o que ocorre é que absorvemos o estilo de comunicação daqui também. Fica mais fácil se comunicar dessa maneira.

Sempre achei que há uma certa falta de formalidade nas relações entre brazucas, que cá entre nós, é necessária em certas situações mas não é algo bom em outras. Não estou falando que deveríamos adotar a ultra formalidade japonesa ou nem a maneira meio a meio dos americanos.

O português brasileiro é o que é, no entanto ao viver em um país com idioma cultura diferente, passamos a entender mais as diferenças entre o português e outros idiomas e a repensar tudo.

 Veja as 101 Dicas da Lu Para Quem Quer Morar Nos EUA

Gostou do Post? Compartilhe!

9 comentários sobre “O Que Acontece Com Seu Português Ao Morar Fora

  1. Concordo plenamente! A gente sente essas diferenças até mesmo dentro do próprio país, quando vamos morar durante um bom tempo em um estado diferente.

  2. Eu ri muito com “Uma coisa linda de se ouvir”, imaginando uma conversa “trilingue”.

    Toda língua românica tem esse “enche linguiça”, devido suas raízes latinas.

    O latim absorveu muito da língua grega clássfica, que foi moldada por filósofos helenísticos. O latim, por sua vez, é a língua dos grandes poetas, que elaboravam cada palavra tratando-a com uma intimidade quase humana, buscando dar o maior valor que ela podia ter, pesando e transmitindo a emoção exata que cada letra do alfabeto possuia para eles. A etimologia de “Amor” é muito mais do que “Roma” ao contrário.

    O que não era grego e latim era considerado “bárbaro”, “língua bárbara” (daí a expressão “blábláblá”), o caso dos idiomas germânicos, que soavam ignorantes aos greco-romanos, sem lógica (mal estruturados), superficiais, frios, grosseiros. O inglês, diga-se, teve uma “melhora” significativa após o domínio napoleônico na Grã Bretanha. A sua versão antiga é quase impronunciável hoje em dia. Se alguém acha o alemão “agressivo”, nem queira saber do velho inglês, antes da maciça influência da língua francesa.

    As filhas legítimas do latim podem não ser diretas, práticas, dinâmicas como o inglês (nem foram estruturadas morfologicamente com tais propósitos), mas têm uma poeticidade, uma prosa, uma flexão, um estilo rebuscado, uma formalidade própria, uma expressividade que faltam naquela.

    Pessoalmente, a minha maior dificuldade na língua inglesa não está em sua simples gramática e seu amplo vocubulário, mas em sua economia, em ir, como você escreveu, “direto ao ponto”, sendo que, como um amante da família linguística poética-filosófica, eu gosto de saborear as palavras, cheias de calorias, e dar um sentido intrínseco às frases. Em inglês, já me repreenderam muito por isso, sempre dando o mesmo conselho: “enxurgar” a frase.

    E cadê que eu consigo?!

  3. Ola Lu! Descobri seu site a pouco e ja venho dando uma olhada de vez em quanto. Acabei de voltar de intercambio (em Washington estado) e so de ver ou ouvir coisa sobre os EUA ja fico com aperto no coracao e saudade… Que lugar maravilhoso!
    Anyway, esse artigo eh engracado, como que a gente troca o “really?! (quando alguem fala algo absurdo)” pra o portugues? Nao tem mesmo! Esse negocio de falar o preco “x dolares” inves de “x reais” tambem eh enrolado haha!
    Thanks for the space to share our thoughts!

  4. Olá Pedro,

    Muito obrigada pela participação. Volte sempre para compartilhar suas experiências conosco!

    abçs

  5. Eu morei no exterior (do Rio de Janeiro ) durante 8 anos e percebi o mesmo em relação ao sotaque carioca pois minha esposa é potiguar eu fiquei 3.3 anos no nordeste e o resto em são Paulo e ao chegar de volta ao Rio levei 45 dias pra adaptar 😉

  6. É verdade, Vitor. Eu também perdi meu sotaque de gaúcha depois de morar muito tempo em outras regiões do país.

  7. Lu, amei este post.
    As minhas filhas falam inglês fluente e de vez em quando as ouço falando inglês entre elas. Pergunto porque, e elas dizem que é mais fácil falar em inglês certas coisas.
    Isto sem falar no Hungaria, em vez de Hungria, que escapou com a minha mais velha, e isto que ela nem mora aí ainda.

Faça parte da conversa: